Devolução de crianças: entenda motivações e causas reais
A devolução de crianças em processos de adoção constitui um fenômeno complexo e multifatorial que exige uma compreensão profunda sobre o sistema judiciário e a dinâmica familiar. Certamente, esse evento não possui uma causa única, sendo o resultado de uma combinação de fatores práticos, emocionais e sistêmicos. Portanto, entender o que motiva a desistência após o início do convívio é fundamental para fortalecer a rede de proteção à infância e evitar novos traumas.
Motivações centrais para a devolução de crianças
A literatura e os dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revelam que as justificativas dos adotantes frequentemente giram em torno de dificuldades comportamentais e de saúde. Muitas famílias relatam comportamentos agressivos, rebeldes ou arredios por parte da criança, além de dificuldades extremas de adaptação. Além disso, a descoberta de transtornos mentais, deficiências intelectuais ou autismo apenas após o início do convívio aumenta significativamente o risco de desistência.
Outro fator determinante é a frustração de expectativas gerada pela idealização da adoção. Quando a “criança real” não corresponde ao filho imaginado, que os pais esperavam ser grato e obediente, surge um descompasso emocional. Nesse sentido, a visão romântica da parentalidade, movida apenas pelo amor abstrato, colide com os desafios práticos de lidar com crianças que possuem históricos de traumas e violações de direitos.
O impacto do despreparo e do perfil na devolução de crianças
Estatisticamente, a idade avançada da criança é o fator que mais se correlaciona ao retorno ao sistema. O estudo indica que crianças acima de 5 ou 6 anos e adolescentes possuem taxas de devolução muito superiores às de bebês. Ademais, a existência de grupos de irmãos e a flexibilização excessiva do perfil aceito pelos pretendentes, muitas vezes feita apenas para reduzir o tempo de espera na fila, contribuem para o insucesso da vinculação.
A ausência de suporte técnico qualificado durante o estágio de convivência também agrava o cenário. Adotantes relatam, por vezes, que a equipe técnica do Judiciário não oferece o apoio necessário nos momentos de crise, deixando a família desamparada diante de conflitos cotidianos. Certamente, a falta de acompanhamento pós-adoção impede que intervenções precoces salvem o vínculo familiar antes da ruptura definitiva.

Recomendações para prevenir a desistência da adoção
Para mitigar a devolução de crianças, a pesquisa Diagnóstico sobre a Devolução de Crianças e Adolescentes propõe ações práticas e normativas. Entre as sugestões, destaca-se a criação de um protocolo nacional para padronizar a avaliação de pretendentes, garantindo que critérios mínimos de aptidão psicológica sejam seguidos em todas as comarcas. Dessa forma, o sistema pode identificar precocemente motivações inadequadas ou expectativas irreais que coloquem o menor em risco.
Além disso, é necessário elevar a qualidade dos cursos preparatórios, focando menos em burocracia e mais em temas psicossociais e vivenciais. Promover a troca de experiências entre profissionais e fortalecer a atuação dos Grupos de Apoio à Adoção (GAAs) são passos vitais para humanizar o processo. Visto que a devolução causa danos devastadores e traumáticos ao psiquismo da criança, o foco deve ser sempre a preservação do seu direito à convivência familiar estável.
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