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Quem são os meninos e meninas que perdem a infância nos abrigos, à espera de adoção? Na segunda reportagem da série Filhos do Coração vamos mostrar as iniciativas para dar um lar a essas crianças e adolescentes. Nem o governo nem os juizados sabem dizer quantas crianças e adolescentes vivem nos abrigos do país. A Associação de Magistrados do Brasil estima que sejam 80 mil meninos e meninas. Como eles vivem? Por que estão longe da família? Ninguém tem todas as respostas. Mas é fácil saber o que essas crianças mais querem: uma família. A pesquisa mais abrangente sobre o assunto foi feita em 2004 apenas nos abrigos ligados ao governo federal, onde moram 24.000 crianças. Os resultados preocupam. A maioria das crianças e adolescentes pesquisados vivia há dois anos nas instituições; 30% estavam nos abrigos num período entre dois e cinco anos. Poucos podiam ser adotados, e o mais alarmante: quase a metade deles não tinha sequer um processo judicial nas varas da Infância e da Juventude. Mais da metade das crianças e adolescentes recebe visitas das famílias, mas voltar pra casa é difícil. Muitos foram abandonados (18,8%), sofreram maus tratos físicos e psicológicos (11,6%), são filhos de dependentes químicos (11,3%) e sofreram abuso sexual dos pais (3,3%). Outros 24% foram abrigados por causa da pobreza – o que não deveria ser um motivo para crescer longe da família. A pesquisadora diz que a rede de atendimento à criança e ao adolescente não consegue resolver tantos casos. “Ela não funciona de forma satisfatória, então não se pode dizer que é culpa só da instituição ou só do Judiciário:a gente tem abandono de todos os lados”, afirma Enid Rocha, coordenadora de Direitos Humanos do Ipea. “A necessidade é que a rede de atendimento de fato funcione como uma rede, para que se chegue a um diagnóstico adequado do que fazer com aquela criança”. No ano passado, o governo federal lançou o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária. Entre dezenas de ações, pretende doar R$ 2 mil para as famílias que, segundo a Justiça, podem ter os filhos de volta, mas têm problemas financeiros. Isso ainda depende de aprovação no Congresso. O governo também vai criar um cadastro único nacional com os dados de todas as crianças que podem ser adotadas e dos pais que estão na fila. Hoje, para adotar, um brasileiro precisa ter mais de 18 anos, fazer entrevistas e receber a visita das equipes da Justiça em casa. Depois de uma rigorosa investigação, que deve durar até três meses, ele entra num cadastro restrito à área em que o juizado atua. “Com o cadastro único, a gente acredita que vá diminuir o tempo de espera dos casais e das crianças que permacem em abrigos. A gente também tem uma expectativa de conseguir finalmente ter informações de quantas crianças estão abrigadas e quantas estão realmente em condições de serem adotadas, coisa que não existe hoje", afirma Marisa Tardelli, secretária especial de Direitos Humanos. Enquanto estas mudanças não chegam aos abrigos, vale a dedicação voluntária. Em Niterói, na região metropolitana do Rio, psicólogos e assistentes sociais pesquisaram a vida das 200 crianças que estão nas instituições da cidade; a esperança é que este trabalho ajude a unir pais e filhos. “As crianças que estão no abrigo precisam de uma solução agora. Nós trabalhamos com a reintegração familiar sempre que possível; ela é obrigatória. Mas não vamos traumatizar as crianças nem deixar que elas pereçam em depósitos por falta de amor. em nome de uma pobreza romântica, demagógica e que precisa ser vencida", cobra o promotor Sávio Bittencourt, do Ministério Público do Rio. Em Fortaleza, a Justiça decidiu mudar essa situação. Na cidade, existem 600 crianças e adolescentes que vivem em abrigos e 200 pessoas na fila para adotar. Para que estes meninos e meninas não cresçam sem família, o Juizado da Infância e Juventude começou a acelerar os processos. O recado para quem trabalha nesta área é claro: abrigo não é casa de criança. “Eu acho que o direito da criança e do adolescente é de ser criado no seio da sua família. Na hipótese de não ser possível, deve ser criada numa família substituta”, explica Darival Bezerra Primo, coordenador das varas de Infância e Juventude em Fortaleza. “Se você demora nas soluções, você vai perder a infância e a juventude. Ao invés de se transformar este jovem num cidadão, possivelmente vai tirar dele o direito da cidadania”. Com o apoio de psicólogos e assistentes sociais de Fortaleza, em um mês, 43 crianças voltaram para as famílias; 35 foram encaminhadas para processos de adoção e oito já estão com os novos pais. O casal Liana e Eliseu acaba de adotar um bebê. “É uma alegria que só quem está passando por ela pode saber”, define Liana. Depois da convivência de um mês, a criança já reconhece os novos pais. Agora, eles têm pela frente um futuro para onde os três caminham juntos.
Matéria dos repórteres Gabriela de Palhano e Rogério Lima exibida em 13/02/2008 e retirada do site Jornal Hoje da Rede Globo.
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