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Os últimos dados sobre o perfil das crianças abrigadas são de 2004 e abrangem as que vivem em 185 instituições na capital paulista. Cerca de 10% delas podem ser adotadas --as outras estão em fase de tentativa de reinserção na própria família, prioridade do Judiciário. Os dados sobre o perfil pedido pelos adotantes dizem respeito ao Estado de São Paulo em 2005 --não há cadastro nacional sobre o tema. Outra informação do estudo é que, embora a maioria das pessoas não determine o sexo da criança ao entrar com o requerimento da adoção, as que decidem fazer essa escolha ainda preferem as meninas. Muitas aceitam crianças com problemas físicos e psicológicos, desde que eles sejam tratáveis. Apenas 2% disseram que adotariam crianças com doenças mentais que não tenham tratamento, e 3% afirmaram o mesmo em relação a problemas físicos não-tratáveis. A comparação da pesquisa com um estudo parecido feito em 2004 mostra que o interesse pela adoção vem crescendo. De um ano para o outro, o número de novos pedidos quase dobrou. Segundo Reinaldo Cintra, juiz auxiliar da Corregedoria-Geral da Justiça do Estado de São Paulo, as pessoas também vêm se importando cada vez menos com a cor da pele, escolhendo a opção "indiferente" nesse quesito. Para a assistente social Ana Maria da Silveira, autora do livro "Adoção de Crianças Negras: Inclusão ou Exclusão?" (ed. Veras), ocorreram pequenos avanços, mas ainda existem muitos tabus. "Crianças negras são preteridas por não se encaixarem nos padrões de beleza vigentes em nossa sociedade. Traços como a cor da pele e o tipo de cabelo ainda são entraves à adoção", afirma. Silveira diz que o preconceito é manifestado inclusive por pais adotivos negros, que escolhem crianças com a pele, no máximo, parda. A psicanalista Maria Antonieta Pisano Motta, coordenadora do Gaasp (Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo), acredita que uma das barreiras à adoção inter-racial é que a diferença de cor deixa a adoção muito evidente. "Fica na cara que o filho não é biológico. E o fato é que muitos pais, mesmo inconscientemente, gostariam de esconder isso." Ela também afirma que as pessoas não admitem ter preconceito, alegando que o que temem é o preconceito da sociedade. "Esse medo só existe se o preconceito ressoar nelas. Se não, elas ririam disso e ajudariam o filho a enfrentar a situação", diz. Para Delamarque Tavares, assistente social da Vara da Infância do Fórum da Lapa, em São Paulo, uma das barreiras à adoção inter-racial e de crianças mais velhas é o desconhecimento. "Muitos casais não imaginam como é um abrigo, não sabem que quase todas as crianças que estão lá são negras e maiores de cinco anos. Quando se informam, eles se sensibilizam e conseguem migrar da criança idealizada para a criança concreta", afirma.
Matéria publicada em 12/04/2007 e retirada do site FOLHA ONLINE do grupo Folha.
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